Senado Federal

Vício em apostas no Senado Federal: minha participação na CPI das apostas esportivas

Por Dr. Vinicius Andrade, médico psiquiatra · · 4 min de leitura

Em 11 de novembro de 2024, participei como convidado de uma audiência pública no Senado Federal dedicada à ludopatia — o vício em apostas esportivas e jogos de azar. A sessão foi realizada pela CPI da Manipulação de Jogos e Apostas Esportivas, e estive presente como médico psiquiatra, representando a Associação Médica Brasileira (AMB) e a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

Levar a perspectiva da psiquiatria para o Congresso foi uma responsabilidade grande. Quem acompanha o consultório de perto sabe que o crescimento das apostas online não é apenas um tema econômico ou esportivo: é, cada vez mais, uma questão de saúde pública. Neste texto, conto como foi a audiência e resumo os pontos que considero essenciais para famílias, pacientes e formuladores de políticas públicas.

O contexto: por que o Senado discutiu ludopatia

A CPI foi criada para investigar a manipulação de resultados no futebol e o funcionamento do mercado de apostas. Ao longo dos trabalhos, ficou claro que não era possível discutir apostas sem discutir o impacto delas na saúde das pessoas. Por isso, a comissão reservou uma sessão específica para ouvir especialistas sobre o vício em jogos.

Participaram da audiência médicos, pesquisadores e representantes do sistema de Justiça, entre eles o professor Hermano Tavares, da Universidade de São Paulo, referência nacional no estudo do jogo patológico e meu orientador de doutorado no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP. A lista completa de convidados e o registro do evento estão disponíveis no portal e-Cidadania do Senado Federal.

Os jovens são o grupo mais vulnerável

Um dos pontos que destaquei na audiência foi a vulnerabilidade dos jovens. Como registrou a Rádio Senado, afirmei que "essa camada mais nova, nossos jovens, que — estudos demonstram —, por aspectos do desenvolvimento cerebral, são mais vulneráveis", e que "se expostos mais cedo, apresentam um potencial maior de desenvolver um uso problemático do jogo".

Isso tem base na neurociência. As regiões do cérebro responsáveis pelo controle de impulsos, pelo planejamento e pela avaliação de consequências continuam amadurecendo até o início da vida adulta. Ao mesmo tempo, o sistema de recompensa dos adolescentes e jovens adultos responde de forma intensa a estímulos rápidos e imprevisíveis — exatamente o tipo de estímulo que as apostas online oferecem, a qualquer hora, na palma da mão.

Jogo patológico é doença, não falta de caráter

O transtorno do jogo é reconhecido pelo DSM-5-TR e pela CID-11. É o único vício comportamental classificado no mesmo capítulo das dependências químicas, porque ativa os mesmos circuitos cerebrais de recompensa. Entre os sinais mais comuns estão:

  • Apostar valores cada vez maiores para sentir a mesma emoção.
  • Tentar recuperar o dinheiro perdido apostando mais ("correr atrás do prejuízo").
  • Mentir para a família sobre o tempo ou o dinheiro gastos.
  • Pedir empréstimos, acumular dívidas ou usar recursos da casa para apostar.
  • Irritação e inquietação ao tentar reduzir ou parar.

Tratar o tema como fraqueza moral só aumenta a vergonha e atrasa a busca por ajuda. Na prática clínica, muitas pessoas chegam ao consultório depois de anos de sofrimento, com dívidas elevadas e relações familiares desgastadas.

O que a psiquiatria pode oferecer

O tratamento do jogo patológico existe e funciona. Ele costuma combinar avaliação psiquiátrica completa, psicoterapia — especialmente abordagens cognitivo-comportamentais —, tratamento de condições associadas como depressão e ansiedade, uso de medicamentos quando indicados e medidas práticas, como autoexclusão das plataformas e controle financeiro com apoio da família.

A família também precisa de orientação. Quitar dívidas sem um plano de tratamento, por exemplo, pode aliviar a crise do momento, mas tende a manter o ciclo das apostas.

Prevenção é responsabilidade coletiva

Do ponto de vista de saúde pública, a experiência internacional e a literatura científica apontam caminhos claros: limitar a publicidade, especialmente a dirigida a jovens; proteger menores de idade; oferecer ferramentas eficazes de autoexclusão e limites de gasto; e ampliar o acesso a tratamento na rede de saúde. Essas medidas não dependem de um único ator — envolvem legisladores, empresas, profissionais de saúde e famílias.

Por que essa experiência importa

Participar da audiência no Senado reforçou algo que vejo diariamente no Ambulatório de Transtornos do Impulso do IPq-HCFMUSP e no consultório: informação de qualidade salva tempo, dinheiro e sofrimento. Quanto antes o problema é reconhecido, maiores as chances de recuperação.

Também atuo como secretário das Comissões de Adicções da Associação Brasileira de Psiquiatria e coordeno o Núcleo de Dependências Comportamentais do Hospital Sírio-Libanês — espaços em que o debate sobre apostas, jogos eletrônicos e outras dependências comportamentais cresce rapidamente. Levar esse conhecimento ao Legislativo é uma forma de ampliar o alcance do que aprendemos com os pacientes e com a pesquisa científica.

Se você ou alguém próximo está perdendo o controle das apostas, procure avaliação especializada. O vício em apostas tem tratamento — e pedir ajuda é o primeiro passo.

Referências no site do Senado Federal

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individual.

Dr. Vinicius Andrade — Médico psiquiatra (CRM-SP 194.977 · RQE 90.715). Atendimento em São Paulo e por telemedicina.